Como se planejar antes de solicitar um financiamento? Veja o que analisar antes de assumir uma dívida de longo prazo

Como se planejar antes de solicitar um financiamento? Veja o que analisar antes de assumir uma dívida de longo prazo

Financiar um imóvel, veículo ou outro bem de valor elevado pode permitir realizar um projeto que levaria muitos anos para ser alcançado apenas com recursos próprios. Entretanto, o financiamento também cria uma obrigação que poderá acompanhar o consumidor durante meses ou até décadas. Por isso, a preparação deveria começar muito antes de enviar uma proposta ao banco.

Um dos erros mais comuns é concentrar toda a atenção na pergunta: “o banco vai aprovar?”. A questão mais importante deveria ser outra: “se o banco aprovar, eu consigo pagar esse financiamento com tranquilidade durante todo o contrato?”.

A instituição financeira fará sua própria análise de risco, observando renda, dívidas, histórico, Score, comprometimento financeiro e características da operação. Mas aprovação bancária não significa necessariamente que aquela prestação seja confortável para o orçamento da família.

Antes de solicitar um financiamento, é importante organizar a vida financeira, conhecer as dívidas existentes, calcular quanto realmente pode ser pago de entrada e comparar o custo total das propostas. Uma boa preparação também pode aumentar as possibilidades de conseguir condições mais competitivas.

Comece definindo exatamente o que pretende financiar

Antes de procurar crédito, determine o objetivo da operação.

Financiar um imóvel para moradia é diferente de financiar um veículo. Os valores, prazos, garantias, custos adicionais e riscos são diferentes.

Também é necessário definir um orçamento máximo para o bem.

Quem entra em uma concessionária ou começa a visitar imóveis sem um limite previamente estabelecido pode acabar aumentando o padrão da compra conforme surgem ofertas.

O limite da compra deve partir da sua realidade financeira, e não do valor máximo que o banco está disposto a financiar.

Faça um orçamento completo antes de procurar o banco

O Banco Central define orçamento pessoal como um planejamento que mostra quanto uma pessoa ganha, quanto gasta e com o que gasta.

Esse levantamento é indispensável antes de assumir uma nova prestação.

Some sua renda líquida recorrente e depois registre aluguel, alimentação, transporte, contas de consumo, escola, seguros, cartões, empréstimos, assinaturas e demais despesas.

O valor que sobra representa sua margem financeira atual. Porém, não utilize toda essa sobra como referência para a prestação.

Imprevistos continuarão acontecendo depois da contratação.

Não planeje o financiamento com base na renda bruta

Observe quanto efetivamente entra na conta.

Salário bruto pode incluir valores que nunca chegam integralmente ao orçamento por causa de impostos, contribuições e outros descontos.

Para autônomos e profissionais com renda variável, utilize uma média conservadora.

Se normalmente recebe entre R$ 5.000 e R$ 7.000, assumir uma prestação com base no melhor mês do ano pode ser perigoso.

O financiamento precisa continuar sustentável também nos meses de menor faturamento.

Calcule todas as parcelas que já existem

Antes de criar uma nova dívida, descubra quanto da renda já está comprometido.

Inclua empréstimos, financiamento de veículo, consignado, compras parceladas e outras obrigações recorrentes.

Uma pessoa pode ter renda elevada e ainda apresentar pouca margem porque assumiu muitas parcelas.

Quanto maior o comprometimento atual, menor é a flexibilidade para enfrentar desemprego, queda de renda ou despesas inesperadas.

Reduzir algumas obrigações antes de pedir o financiamento pode melhorar tanto a segurança pessoal quanto o perfil analisado pelo banco.

Consulte seu SCR antes de solicitar financiamento

Uma ferramenta muito útil é o Relatório de Empréstimos e Financiamentos do Banco Central, relacionado ao SCR.

O relatório apresenta dívidas e compromissos existentes com instituições financeiras, saldo devedor, tipo de operação, situação em dia ou atraso e determinados limites de crédito.

O próprio Banco Central destaca que o relatório pode ser usado para avaliar se o consumidor já está muito endividado antes de contratar uma nova operação.

Essa consulta também pode revelar alguma dívida ou relacionamento que você não reconhece.

Confira o relatório com antecedência

Não deixe essa verificação para o dia em que o financiamento já estiver sendo analisado.

Se encontrar uma informação incorreta, procure a instituição responsável.

Também é importante lembrar que o SCR não é atualizado imediatamente após pagamentos. As instituições enviam dados ao Banco Central periodicamente.

Portanto, se pretende quitar um empréstimo para reduzir o endividamento antes do financiamento, organize-se com antecedência suficiente para que a nova situação possa ser refletida nos sistemas envolvidos.

Consulte seu Score, mas não fique preso apenas ao número

O Score pode contribuir para a análise porque ajuda a estimar risco de inadimplência.

Uma pontuação mais favorável pode aumentar as possibilidades de aprovação ou de receber melhores condições.

Porém, não existe uma pontuação universal que garanta financiamento.

Os bancos também podem analisar renda, dívidas, relacionamento interno, SCR, entrada e características do bem.

Por isso, não adie indefinidamente um projeto apenas porque não atingiu um número arbitrário encontrado na internet. Analise o conjunto do perfil.

Regularize negativações antes da proposta

Se existem dívidas negativadas, procure entender cada uma delas antes de solicitar um financiamento importante.

Uma restrição ativa pode dificultar significativamente determinadas análises.

Confirme se a dívida é legítima, negocie quando fizer sentido e guarde os comprovantes.

Depois da regularização, acompanhe a atualização do cadastro.

Não faça um acordo com prestação incompatível apenas para retirar rapidamente uma restrição. O objetivo é melhorar a situação financeira, e não substituir uma dívida problemática por outra que também será difícil de pagar.

Evite solicitar vários créditos ao mesmo tempo

Nos meses que antecedem um financiamento importante, tenha cuidado com pedidos desnecessários de cartões, empréstimos e aumentos de limite.

Cada nova operação pode alterar seu nível de endividamento.

Além disso, uma concentração de solicitações de crédito pode ser considerada em determinados modelos de risco.

Se pretende financiar um imóvel, por exemplo, talvez não seja o melhor momento para contratar também um empréstimo pessoal e financiar um veículo.

Preserve sua capacidade financeira para o objetivo principal.

Quanto maior a entrada, menor tende a ser a dívida

Guardar dinheiro para a entrada é uma das estratégias mais eficientes antes de financiar.

Considere um bem de R$ 200 mil. Financiar R$ 180 mil representa uma operação diferente de financiar R$ 120 mil.

Uma entrada maior reduz o valor sobre o qual os juros serão cobrados e pode diminuir a prestação.

Também reduz a exposição do banco e pode tornar a operação mais compatível com a renda do comprador.

Isso não significa utilizar absolutamente todo o patrimônio disponível na entrada.

Não use toda a sua reserva financeira

Depois da compra, novas despesas podem aparecer.

No imóvel, podem existir mudança, documentação, condomínio, IPTU, reformas, móveis e manutenção.

No veículo, surgem seguro, IPVA, combustível, estacionamento e manutenção.

Se todo o dinheiro foi utilizado na entrada, qualquer imprevisto poderá levar imediatamente ao cartão, cheque especial ou empréstimo.

O ideal é encontrar um equilíbrio entre reduzir o valor financiado e preservar uma reserva de segurança.

Financiamento não custa apenas a prestação

Esse é um erro muito comum.

Ao financiar um veículo, não considere apenas a parcela. Acrescente combustível, seguro, manutenção, impostos e eventual estacionamento.

No financiamento imobiliário, considere condomínio, IPTU, manutenção e demais custos da propriedade.

Uma prestação de R$ 2.500 pode parecer adequada isoladamente, mas o bem pode gerar outros R$ 1.500 mensais em despesas.

A análise correta considera o custo total de possuir aquilo que está sendo financiado.

Compare o Custo Efetivo Total

Não escolha um financiamento apenas pela taxa de juros anunciada.

O Banco Central orienta o consumidor a observar o Custo Efetivo Total, conhecido como CET.

O CET reúne juros, tarifas, impostos e outros custos previstos na operação.

Isso torna a comparação entre propostas muito mais eficiente.

Dois bancos podem anunciar juros parecidos e apresentar CET diferente.

Antes de decidir, peça as propostas nas mesmas condições de valor de entrada e prazo para que a comparação seja justa.

Menor parcela não significa financiamento mais barato

Uma prestação pode cair bastante quando o prazo aumenta.

Isso pode deixar o financiamento aparentemente mais confortável, mas normalmente aumenta o período durante o qual os juros incidem.

Imagine uma proposta em 36 parcelas e outra em 60.

A segunda pode possuir prestação menor, mas o total desembolsado até o final pode ser significativamente superior.

Compare sempre o valor total financiado, o CET, o número de parcelas e o total a pagar.

Escolha um prazo compatível com sua realidade

O melhor prazo não é necessariamente o menor possível.

Uma prestação excessivamente alta também aumenta o risco de inadimplência.

O objetivo é encontrar um equilíbrio.

A parcela deve caber confortavelmente no orçamento, enquanto o prazo não deve ser prolongado apenas para permitir uma compra muito acima da sua capacidade.

Se a única maneira de financiar determinado bem é utilizar o prazo máximo e comprometer quase toda a renda disponível, talvez seja necessário reconsiderar o valor da compra.

Faça simulações em várias instituições

Não limite a pesquisa ao banco onde recebe o salário.

Instituições possuem políticas de risco e estratégias comerciais diferentes.

Uma pode aprovar valor maior, enquanto outra pode apresentar juros menores.

Faça simulações com condições semelhantes e compare CET, entrada, prestação, prazo e total a pagar.

O relacionamento bancário pode gerar vantagens, mas não existe garantia de que seu banco atual terá a melhor proposta.

Use o Open Finance quando fizer sentido

O Open Finance permite que o consumidor autorize o compartilhamento de determinadas informações financeiras entre instituições participantes.

Isso pode ser útil quando você possui bom histórico em um banco, mas deseja obter proposta em outro que ainda conhece pouco seu perfil.

Com autorização, a instituição pode ter acesso às informações abrangidas pelo consentimento e realizar uma análise mais completa.

Open Finance não garante aprovação nem juros menores, mas pode reduzir a assimetria de informações entre cliente e instituição.

Atualize renda e dados cadastrais

Antes de solicitar o financiamento, verifique se endereço, telefone, e-mail e renda estão corretos junto às instituições relevantes.

Se sua renda aumentou desde a abertura da conta, o banco pode estar trabalhando com dados antigos.

Atualizar informações verdadeiras pode melhorar a qualidade da análise.

Isso não significa informar uma renda artificialmente maior.

Dados inconsistentes podem gerar exigência de documentos adicionais e até prejudicar a contratação.

Prepare a documentação com antecedência

A documentação necessária varia conforme o financiamento e a instituição.

Podem ser solicitados documento de identificação, CPF, comprovantes de renda, extratos, declarações e documentos do bem.

Autônomos, empresários e profissionais liberais podem precisar demonstrar capacidade financeira por outras formas.

Organizar esses documentos antes de iniciar a análise reduz atrasos e permite verificar se existe alguma inconsistência que precisa ser corrigida.

Autônomos precisam cuidar especialmente da comprovação de renda

Quem não possui salário fixo deve demonstrar uma movimentação financeira coerente.

Recebimentos recorrentes, documentos fiscais, declarações e extratos podem ser considerados, dependendo da instituição.

Evite misturar de forma desorganizada finanças pessoais e empresariais.

Quanto mais clara for a origem dos recursos, mais fácil tende a ser demonstrar sua capacidade de pagamento.

Faça um teste antes de assumir a prestação

Uma estratégia útil é simular o impacto do financiamento durante alguns meses.

Se acredita que poderá pagar R$ 2.000 de prestação, experimente guardar R$ 2.000 por mês antes da contratação.

Se não consegue fazer isso sem utilizar o cartão ou entrar no cheque especial, é um sinal de que a prestação pode estar acima do confortável.

Se consegue guardar regularmente, ainda cria uma reserva adicional para entrada ou emergências.

Considere cenários desfavoráveis

Planejamento financeiro não deve considerar apenas o cenário perfeito.

Pergunte o que aconteceria se sua renda diminuísse 20%, se surgisse uma despesa médica ou se ficasse alguns meses sem emprego.

Casais também devem avaliar o impacto de perder temporariamente uma das rendas.

Um financiamento sustentável precisa possuir alguma margem de segurança.

Quanto mais próxima a prestação estiver do limite absoluto do orçamento, menor será a capacidade de enfrentar problemas.

Evite novas dívidas durante a análise

Depois de enviar a proposta, preserve o perfil financeiro até a contratação definitiva.

Não presuma que uma pré-aprovação significa que tudo está garantido.

Dependendo do processo da instituição, informações podem ser verificadas novamente.

Além disso, contratar novas parcelas nesse período reduz sua margem financeira justamente antes de assumir uma obrigação de longo prazo.

Pré-aprovação não é financiamento concluído

Simulações e pré-análises são úteis, mas não devem ser confundidas com contrato assinado.

Em um financiamento de imóvel, por exemplo, ainda podem existir análise documental, avaliação do bem e outras etapas.

Por isso, tenha cuidado ao assumir compromissos irreversíveis baseando-se apenas em uma simulação.

Quando houver contrato de compra e venda condicionado ao financiamento, leia atentamente as regras caso o crédito não seja aprovado.

Analise o contrato antes de assinar

O Banco Central informa que contratos de empréstimos e financiamentos devem apresentar informações como taxas efetivas mensal e anual, tributos, tarifas, outras despesas e o CET.

Leia também as regras para atraso, amortização e quitação antecipada.

Não assine apenas porque o vendedor informou verbalmente o valor da prestação.

Confirme se os números do contrato correspondem à proposta recebida.

Cuidado com tarifas e produtos adicionais

Durante uma contratação podem ser oferecidos seguros e outros produtos.

Alguns podem fazer parte da estrutura obrigatória da operação, enquanto outros podem ser adicionais.

Pergunte claramente o que é obrigatório e o que é opcional.

Compare o CET e leia cada item antes de aceitar.

Uma pequena cobrança mensal pode se transformar em um valor relevante quando multiplicada por dezenas de parcelas.

Não faça depósito antecipado para “liberar” financiamento

Golpistas aproveitam consumidores que estão procurando crédito.

Uma fraude comum envolve promessa de aprovação seguida de cobrança antecipada para liberar o dinheiro.

Desconfie de propostas recebidas por mensagens não solicitadas, principalmente quando existe pressão para transferir imediatamente.

Confirme sempre a instituição e utilize canais oficiais.

Planejamento para financiamento de veículo

No veículo, calcule entrada, prestação e custo de manutenção.

Verifique também o valor de seguro para aquele modelo antes de fechar o negócio.

Um carro mais caro normalmente não significa apenas prestação maior. Seguro, peças, pneus e impostos também podem aumentar.

Observe ainda a desvalorização do veículo e evite prazos excessivamente longos que mantenham dívida elevada sobre um bem que perde valor ao longo do tempo.

Planejamento para financiamento imobiliário

No imóvel, o horizonte é muito maior.

Além da entrada, prepare-se para despesas relacionadas à aquisição e manutenção.

Considere se pretende permanecer naquela cidade, se a renda familiar é estável e se o imóvel continuará adequado caso a família mude.

Compare sistemas de amortização, CET e condições para amortizações extraordinárias.

Quem possui recursos do FGTS e atende aos requisitos aplicáveis pode verificar se eles podem ser utilizados na operação.

Financiar o valor máximo aprovado é uma boa ideia?

Não necessariamente.

O banco calcula quanto está disposto a emprestar dentro de seus critérios de risco.

Isso não significa que você precise contratar todo o valor.

Financiar menos pode significar prestação mais confortável e menor custo total.

Seu objetivo deveria ser encontrar o valor adequado à sua vida financeira, e não descobrir o limite máximo do sistema.

Quando é melhor esperar alguns meses?

Adiar a solicitação pode ser inteligente quando existem negativações, endividamento elevado, ausência de reserva, renda instável ou entrada muito pequena.

Alguns meses podem permitir quitar parcelas, acumular uma entrada maior e melhorar a organização financeira.

Esperar também pode reduzir o valor necessário do financiamento.

O fato de o crédito estar disponível hoje não significa que hoje seja o melhor momento para contratá-lo.

Use um checklist antes de enviar a proposta

  • Defini o valor máximo que posso pagar pelo bem.
  • Conheço minha renda líquida e minhas despesas reais.
  • Somei todas as parcelas que já possuo.
  • Consultei meu Score e verifiquei eventuais restrições.
  • Consultei o SCR e reconheço minhas operações.
  • Tenho uma entrada sem utilizar toda minha reserva.
  • Calculei os custos adicionais do bem.
  • Comparei propostas de mais de uma instituição.
  • Comparei CET, prazo e valor total a pagar.
  • Tenho documentação e dados cadastrais atualizados.
  • A prestação continua possível em um cenário de redução temporária de renda.
  • Entendi todas as condições antes de assinar.

Conclusão: prepare sua vida financeira antes de pedir a aprovação

Solicitar um financiamento deveria ser a etapa final de um processo de planejamento, e não o começo.

Antes de procurar o banco, organize o orçamento e descubra quanto realmente sobra depois de todas as despesas.

Conheça suas dívidas atuais e utilize o SCR do Banco Central para verificar operações, saldos e limites existentes.

Consulte também seu Score e resolva eventuais negativações, mas lembre-se de que nenhuma pontuação garante aprovação.

Juntar uma entrada maior pode reduzir significativamente o valor financiado e o custo total. Porém, evite utilizar toda a reserva financeira na compra.

Compare propostas em diferentes instituições e observe principalmente o Custo Efetivo Total. Juros anunciados e valor da parcela, isoladamente, não mostram quanto o financiamento realmente custa.

Tenha cuidado com prazos muito longos utilizados apenas para fazer uma compra acima da sua capacidade parecer acessível.

Também calcule todas as despesas associadas ao bem. Carro gera seguro, impostos e manutenção; imóvel gera despesas próprias que continuarão depois da assinatura.

Quando a prestação estiver próxima do limite do orçamento, considere reduzir o valor do bem, aumentar a entrada ou esperar mais algum tempo.

O financiamento deve ajudar a realizar um projeto, e não tornar a renda futura permanentemente apertada.

A pergunta mais importante antes de assinar não é “quanto o banco aprovou?”, mas “quanto eu consigo pagar mantendo minha segurança financeira?”.

Quando essa resposta é construída com orçamento, reserva, comparação de propostas e conhecimento do próprio endividamento, a contratação tende a ser muito mais consciente e sustentável.

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